Encontro nacional reuniu gestores de diversas instituições de ensino superior para compartilhar indicadores de gestão ambiental, transição energética e impacto social

A USP sediou, na segunda-feira, 15 de junho, um encontro que reuniu gestores de instituições de ensino superior de todo o Brasil para discutir como tornar as universidades agentes concretos da agenda climática global. O Workshop Nacional UI GreenMetric para Universidades no Brasil 2026 foi aberto na Sala do Conselho Universitário da USP, com uma programação que se estendeu até o dia seguinte, incluindo sessões temáticas dedicadas à gestão de resíduos, transição energética e cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU). O encontro foi organizado pela Superintendência de Gestão Ambiental (SGA) da USP e contou com a participação do presidente do UI GreenMetric, Vishnu Juwono, e da vice-presidente, Abellia Anggi Wardani, ambos da Universidade da Indonésia (UI).
A escolha da USP como anfitriã acompanha o desempenho recente da instituição em indicadores ambientais. A Universidade ocupa, pelo segundo ano consecutivo, o quinto lugar no ranking mundial UI GreenMetric e a liderança entre as universidades da América Latina, sendo a única instituição brasileira entre as dez primeiras do mundo em uma lista que reúne 1745 instituições de 105 regiões. O fórum usou esse histórico como ponto de partida para consolidar o uso de referenciais globais e trocar experiências mensuráveis na agenda ambiental.
Criado em 2010 pela UI, o UI GreenMetric é o primeiro ranking internacional dedicado exclusivamente à avaliação de políticas e práticas de sustentabilidade em instituições de ensino superior. A metodologia considera 58 indicadores distribuídos em seis dimensões: infraestrutura; energia e mudanças climáticas; resíduos; água; mobilidade; e educação e pesquisa. A iniciativa conta com equipes multidisciplinares com experiência em gestão da educação superior, ciências ambientais, análise de dados e relações internacionais, além de um conselho consultivo presidido pelo reitor da UI e por representantes governamentais.
O evento reuniu cerca de 70 participantes e incluiu gestores de grandes instituições, como a Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul, a PUC Campinas, a Universidade Federal de Lavras (UFLA), a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade Estadual Paulista (Unesp). Durante as sessões, dirigentes e coordenadores debateram os rumos da governança institucional e o papel pedagógico das universidades frente à crise climática.

O reitor da USP, Aluísio Segurado, situou o encontro dentro de um momento de pressão sobre as instituições acadêmicas e reafirmou o compromisso da universidade com a pesquisa interdisciplinar e a responsabilidade social: “Vivemos um período marcado por desafios globais complexos, como tensões geopolíticas, guerras, polarização, desinformação e questionamentos sobre o papel das universidades e do investimento público em educação superior. Nesse contexto, reafirmo o compromisso da Universidade de São Paulo com sua missão de formar profissionais e lideranças conscientes de sua responsabilidade social, promovendo o conhecimento por meio do ensino, da pesquisa, da inovação, da cultura e da extensão. Guiada por princípios como excelência acadêmica, direitos humanos, democracia, ética, diversidade e colaboração, a USP tem incorporado a sustentabilidade de forma transversal em todas as áreas do conhecimento, fortalecendo pesquisas interdisciplinares e transformando seus campi em laboratórios vivos para a experimentação de soluções inovadoras. O reconhecimento alcançado no UI GreenMetric demonstra os resultados desse esforço contínuo e reforça nossa determinação de seguir desenvolvendo ações capazes de contribuir para uma sociedade mais sustentável e resiliente”.
Para a superintendente de Gestão Ambiental da USP, Patricia Iglecias, o patamar alcançado pela instituição é fruto de uma longa trajetória de investimentos estruturais: “Entendemos que a produção de conhecimento precisa caminhar junto com a responsabilidade ambiental. Como uma instituição do porte de uma pequena cidade, assumimos o compromisso de reduzir nosso impacto e transformar nossos campi em exemplos concretos de sustentabilidade. Essa posição foi conquistada ao longo de anos, com a criação de estruturas de governança ambiental, a adoção de políticas institucionais e investimentos em conservação, energias renováveis, bioenergia, hidrogênio verde e monitoramento das emissões de gases de efeito estufa. O reconhecimento internacional que alcançamos reflete o esforço coletivo de toda a comunidade universitária, mas representa apenas uma etapa de uma jornada contínua. Acredito que as universidades têm o dever de colocar sua capacidade científica, educacional e institucional a serviço de um futuro sustentável, contribuindo não apenas com pesquisa, mas também com ações concretas que inspirem a sociedade. Na USP, escolhemos fazer da sustentabilidade um compromisso permanente com as próximas gerações. Eu acho que esse evento é uma oportunidade que nós temos de compartilhar os nossos trabalhos, e isso agrega muito para aquilo que nós estamos fazendo”, declarou.

O presidente da UI GreenMetric, Vishnu Juwono, fez uma defesa do protagonismo das universidades na transição para um modelo urbano mais sustentável e no desenvolvimento de políticas públicas baseadas em dados: “Acredito que os grandes desafios da humanidade, como a crise climática, são resultados das nossas próprias escolhas e, portanto, podem ser enfrentados e solucionados por nós. No cenário atual, as universidades deixaram de ser apenas centros de ensino e pesquisa para se tornarem protagonistas na construção de um futuro sustentável. Ao transformar nossos campi em laboratórios vivos, capazes de testar e implementar soluções concretas, influenciamos a forma como a sociedade vive e se desenvolve. O movimento internacional do UI GreenMetric demonstra a força dessa mobilização coletiva, reunindo universidades de todo o mundo em torno de critérios cada vez mais robustos de sustentabilidade, governança, transparência e transformação digital. Tenho especial orgulho do papel desempenhado pelas universidades brasileiras, cuja participação crescente e resultados de destaque comprovam um compromisso consistente com a agenda ambiental. Mais do que rankings ou indicadores, essa iniciativa representa um esforço global de aprendizagem, cooperação e responsabilidade compartilhada. Os desafios que enfrentamos exigem ambição, colaboração internacional e liderança institucional. Por isso, reafirmo a convicção de que somos nós os agentes da mudança que buscamos e que, juntos, temos a responsabilidade de construir um planeta mais sustentável para as próximas gerações”.
A vice-presidente da UI GreenMetric, Abellia Anggi Wardani, fechou os trabalhos detalhando o suporte metodológico que o comitê oferece para que as universidades acompanhem seus avanços com base em dados confiáveis e auditorias transparentes: “Nosso trabalho foca em dar suporte técnico e metodológico para que as universidades possam medir seu progresso com precisão. Nós ajudamos a apoiar a orientação de coletas de dados e o desenvolvimento do livro de relatórios dos ODS, sempre baseados em padrões internacionais. Queremos que cada universidade tenha clareza sobre como suas ações individuais contribuem para a agenda global de sustentabilidade, permitindo que a gestão baseada em evidências se torne uma realidade institucional”.
Veja, abaixo, a gravação do evento:
Agenda sobre justiça climática
Além do evento realizado na Universidade, Patrícia Iglecias e Vishnu Juwono cumpriram uma agenda ligada à pauta ambiental no dia 16 de junho em Brasília, que incluiu uma palestra da superintendente de Gestão Ambiental da USP no Supremo Tribunal Federal (STF) dentro da programação do seminário Justiça Climática: princípios, desafios e perspectivas para a atuação do Poder Judiciário. Na apresentação, que teve como tema “Justiça Climática”, a professora explicou que a justiça climática consolida-se como um campo essencial para combater o fato de que as crises ambientais globais aprofundam as desigualdades sociais, atingindo de forma desproporcional as populações mais vulneráveis que historicamente menos contribuíram para a emissão de gases de efeito estufa. Segundo ela, “no ordenamento jurídico brasileiro, o principal alicerce para essa governança é o Artigo 225 da Constituição Federal de 1988, que impõe ao Estado e à coletividade o dever de defender o meio ambiente ecologicamente equilibrado sob o princípio da solidariedade intergeracional. Para viabilizar essa proteção, o Direito Ambiental utiliza princípios estruturantes como a prevenção, a precaução e o poluidor-pagador , impulsionando a litigância climática nos tribunais superiores como um vetor para frear retrocessos normativos e forçar a mitigação de danos. Apesar de o país enfrentar desafios complexos, como a dificuldade na comprovação do nexo causal e o risco de regressão normativa, a aplicação de processos estruturais e o cumprimento dos compromissos do Acordo de Paris despontam como caminhos fundamentais para garantir que a urgência científica se converta em efetiva proteção jurídica”.

(Adaptado de publicação original do Jornal da USP)